segunda-feira, 27 de maio de 2013

Hoje, quando eu cheguei da escola, vi um pacote do SEDEX aberto na sala.

Não fazia a menor ideia do quê poderia ser aquilo. Imaginei que fosse alguma peça que meu pai encomendou para o computador, ou sei lá. 

Minha mãe estava no chuveiro. Eu bati na porta e avisei que tinha acabado de chegar, e ela pediu para que eu entrasse para conversarmos. Eu entrei no banheiro, e ela começou a me explicar o quê aconteceu.

Ontem de manhã, acordamos mais cedo para levarmos meu avô para fazer alguns exames. Ele tinha umas manchas estranhas espalhadas pelos braços e pela careca que precisavam ser examinadas. Eu fiquei na escola de manhã, dei ''Tchau'' para ele, e meus pais levaram ele até o hospital. Meu avô não pode mais ir sozinho ao hospital onde minha mãe trabalha. Isso porque da última vez que ele fez isso, desmaiou no meio da rua e bateu a cabeça na calçada. Naquele dia eu recebi uma ligação na escola, da minha mãe, pedindo para que eu fosse com eles ver meu avô. Naquele dia, meu avô foi internado. Passamos meses cuidando dele e ele foi melhorando gradativamente. Mas por causa da queda, ele seu Alzheimer acelerou. Meu avô, o homem que passou mais tempo comigo quando eu era pequena do quê meus próprios pais, o homem que cuidou de mim por tanto tempo e me ensinou tanta coisa, agora parecia um velho. Ele tinha apenas uns setenta e poucos anos. Mas sua mente já estava se tornando a mente de uma pessoa muito mais idosa. Naquele ano eu fui muito mal na escola porque precisava passar noites em claro no hospital com ele. Mas passou. Achamos que tudo estaria bem. Só precisaríamos dar mais atenção para ele... Mas com o tempo ele foi piorando de novo. Contratamos uma empregada para que cuidasse dele e de minha avó, que é cega. Meu avô, um homem teimoso, queria porque queria fazer tudo sozinho e achava que ainda estava bem. E vivíamos brigando com ele por achar que não precisava de ajuda. Meu avô estava se tornando uma criancinha.

Ontem de manhã, eu não olhei no rosto do meu avô. Não só porque eu estava no banco da frente, mas porque eu não queria olhar nos olhos dele. Eu não reconhecia mais meu avô. Aqueles olhos eram os mesmo que eu vi quando ele voltou do hospital. Eram olhos perturbados e insanos. Não eram os olhos carinhosos que brincavam comigo quando eu era pequena. Eu não conseguia mais encarar meu avô de perto. 
Eu disse ''Tchau, vô'' e sai do carro.

Na tarde de ontem, minha mãe chegou em casa muito cedo. Eu estranhei, já que ela geralmente volta tarde da noite, e perguntei o porquê. Meu avô tinha sofrido um acidente e ela estava indo com minha tia para o hospital onde ele estava. Que era o mesmo hospital onde ele foi internado da outra vez. Eu entrei em choque. Eu sabia que tudo iria se repetir. Mas não. Dessa vez foi diferente. 

Quando voltei do cursinho, meu pai me buscou no metrô e me explicou parte da história. Ele saiu na chuva para pegar a correspondência e caiu da escada. Meu pai disse que na hora ele parecia bem, e que um tempo depois uma ambulância do Samu levou ele e a empregada para  hospital. Eu achava que ele ficaria bem. 
Mas não ficou.

Minha mãe me contou tudo. Tinha acabado de parar de chover, quando o carteiro chamou meu avô para buscar as cartas para que não as molhasse. A empregada estava no quintal e avisou meu avô que buscaria a correspondência para ele, mas meu avô teimoso disse que conseguia ir sozinho, e correu na frente dela. A escada da estrada é de cimento liso e é muito alta, muito estreita. Quando meu avô chegou no portão, ele escorregou e caiu (ele não rolou, ele caiu) da escada, de costas, e bateu a cabeça no chão. Um pedreiro que estava do lado viu a queda, e disse que foi feia. A empregada e meu pai correram para ajudá-lo, e na hora ele ainda estava consciente. A ambulância chegou e levou meu avô de maca para o hospital. Minha mãe e uma de suas irmãs foram até lá, e o médico disse que ele não estava em estado grave: Seu estado era gravíssimo. Ele tinha três coágulos na cabeça e duas fraturas. Eles disseram que precisavam operar meu avô, mas o médico não estava presente. Minha mãe e minha tia esperaram o médico das 13h. até às 23h. Minha tia chamou a polícia e minha mãe ameaçou processar o hospital, porque passaram-se dez horas e meu avô ainda estava na maca do Samu. A cirurgia começou à meia noite e terminou hoje, às nove horas da manhã. O médico disse que ele provavelmente não aguentaria. Eles abriram praticamente toda a cabeça dele, e agora ele respira com a ajuda de aparelhos. Além disso, o exames que ele fez de manhã disseram que aquelas manchas eram câncer. Minha mãe também não acreditava que meu avô passaria dessa. 

Quando saí do banheiro, fui direto para o meu quarto. Milhões de pensamentos ocorreram pela minha cabeça. Minha mãe havia dito: ''Algumas coisas são para acontecer, não é? O carteiro nunca tinha chamado seu avô para buscar as cartas. A empregada raramente ficava longe dele. Por azar, o piso da escada ainda estava molhado. E o vagabundo do médico não estava disponível. Infelizmente, dessa vez, não houve escapatória. Era para acontecer''. Eu me arrependo muito de não ter olhado nos olhos de meu avô pela última vez. Muito mesmo. Ainda não sabemos se ele vai sobreviver ou não, mais é muito pouco provável. Meu avô nunca mais vai brincar comigo. Ele nunca mais verá outro namorado meu. Ele não vai me ver no vestido de formatura que minha prima mais velha usou e ia me emprestar, que ele tanto queria ver. Ele não verá meu priminho, de 1 ano, crescer. E eu sinto muita raiva de mim mesma. Raiva porque, mais do que nunca, estou tentando ser forte por mim e pela minha mãe. Raiva porque, mesmo agora e nessa situação, estou tão triste que não consigo nem chorar. Nem uma gotinha, de tanta raiva e tristeza que sinto por dentro. Raiva porque meu avô, que eu queria tanto que morresse em uma cama quentinha e dormindo, sofreu um acidente tão horrível e agora vai embora sem nem ter dado tempo de eu dar um ''Tchau, vô'' com carinho. Só me resta esperar por uma resposta e rezar pelo meu avô. Só me resta continuar firme enquanto ainda posso. 

Hoje o SEDEX entregou uma encomenda que minha mãe havia feito para meu avô. Era um presente de Páscoa que atrasou, e que passamos semanas reclamando com o vendedor para que ele entregasse a tempo de darmos de presente para ele ainda na Páscoa. Enfim, ele chegou.

Minha mãe chorou quando abriu o embrulho.

Nenhum comentário: